domingo, julho 01, 2007

Adeus










" Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,







e o que nos ficou não chega







para afastar o frio de quatro paredes.







Gastámos tudo menos o silêncio.







Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,







gastámos as mãos à força de as apertarmos,







gastámos o relógio e as pedras das esquina







sem esperas inúteis.






















Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.







Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;







era como se todas as coisas fossem minhas:







quanto mais te dava mais tinha para te dar.







Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.







E eu acreditava.







Acreditava,







porque ao teu lado







todas as coisas eram possíveis.























Mas isso era no tempo dos segredos,











era no tempo em que o teu corpo era um aquário,











era no tempo em que os meus olhos











eram realmente peixes verdes.











Hoje são apenas os meus olhos.











É pouco mas é verdade,











uns olhos como todos os outros.




























Já gastámos as palavras.











Quando agora digo: meu amor,











já não se passa absolutamente nada.











E no entanto, antes das palavras gastas,











tenho a certeza











de que todas as coisas estremeciam











só de murmurar o teu nome











no silêncio do meu coração.










Não temos já nada para dar.











Dentro de ti











não há nada que me peça água.











O passado é inútil como um trapo.











E já te disse: as palavras estão gastas.












Adeus."












Eugénio de Andrade

14 comentários:

Pescador disse...

estranha esta vontade em te querer dizer adeus, ...
agora que te voltei a encontrar, ...
agora...,
agora que apenas te queria dizer olá...

Aran disse...

... raro são os casos em que de facto a nossa vontade permanece... geralmente são-no na verdade... o contrário à nossa vontade... é a tal que resposta que te faltava... ;)
Ou te sentirás livre... ou serás confrontado com um novo obstáculo... "a prova final"... ;)
Bonito poema de Eugénio de Andrade, espero que estejas bem!!!!
Um beijinho grande

Pescador disse...

estou sim , minha querida, apesar de nesta ultima semana ter tido um grande susto com o meu pai..., mas o pior já lá vai...
... mas acredita que nos faz pensar em muitas coisas...
em relação ao resto...
estou bem...
mas ... ultimamente dói algo aqui dentro...
...
" estranha é a dor na alma "
...
Bjs doces , mil..., e mil vezes obrigado pelo carinho e pela presença..., tu és uma pessoa especial...
para mim tu és assim, imensamente especial...
Pescador

Anónimo disse...

Este post tem certamente uma destinatária mas não resisti, mais uma vez , a dizer-te que esta tua praia é um sítio lindo !

Gosto muito deste poema, curiosamente cada vez mais,em cada leitura... e as tuas imagens têm uma força fabulosa(gosto particularmente das terceira e quinta)!!!

Há seguramente palavras que se gastam mas a invenção do ser feliz passa pela cumplicidade de silêncios e por novas cores e ritmos de (re)criar sentires e de saborear dizendo...
Haveria tantas razões para não acreditar mas nenhuma me convenceu, ainda...é uma questão de querer e acho que vale tanto a pena!

Um abraço pescador
M

Anónimo disse...

Às vezes penso se haverá na vida dor pior do que sentir que tudo foi dito, que tudo o que antes era tao imensamente grande para nos transbordar no corpo se tenha gasto.. Que se olhe em volta e não tenha sobrado coisa nenhuma... Ou melhor, sobra sempre o cuidado, a entrega, a desilusão, a resistência em ver que não há mais caminho para percorrer...
Sei que já disse isto outras vezes, mas é mesmo impressionante como os textos que tu publicas se encaixam na minha vida, nos meus momentos sem sequer termos contacto um com o outro (a não ser por aqui :))
Dois minutos antes de ligar a internet pensei aqui sozinha para com os meus botões que era mesmo hora de dizer adeus, pousei o telemóvel e peguei no computador porque mentalmente revi a conversa que acabei por não ter e pensei que tudo já tinha sido dito...
É horrível como um dia tocamos as nuvens e logo a seguir, ainda mal nos habituámos à serenidade, já chove torrencialmente sobre nós...
Sei que o texto não é teu, mas se o publicas é porque te diz algo neste momento e porque sabes o que é sentir a grande quantidade de emoções aqui presente, por isso não pude deixar de comentar...
Espero que um dia, todos estes poemas deixem de nos interessar ou se tornem ridículos sob os nossos olhares, pois isso seria prova de que na nossa memória teriam sumido todas as dores que os tornam universais...
um beijo
Pandora

Miss 15 disse...

Tudo o que disser te foi já dito. Por isso, deixo apenas o rasto da passagem... Talvez te baste.

biga disse...

olá pescador....«pintaste» de novo a tua barca...assim apetece-nos fazer-te mais visitas e pedir uma boleia nas tuas palavras e nos teus sentimentos... e viajar até onde não haja mais silêncio...viajar até onde as palavras não estejam gastas...viajar até onde???
bonita escolha!!!
Um beijinho muito grande para ti de umas vozes que navega numas águas nostálgicas sem saber bem porquê.

Ni disse...

«mas isso era no tempo dos segredos...»
...

As palavras não se gastam... por vezes a àgua e o sal do mar dos olhos... fazem das palavras ilhas... distantes.... silenciosas. Mas não se gastam. Estão lá... na rota das marés plenas de afecto... à espera dos sorrisos de novos amados. À espera de serem resgatadas pelos beijos de quem se quer bem... e se sabe bem querer.

Sorrio quando te leio. Porque cada palavra, cada imagem... cada som, cada cor... é um reflexo de passos meus. Tatuados na minha essência. Nas asas escondidas.

...

Tens algo para ti no meu blog.
Criei um 'blog award'...'momentUS de Excelência'... e o teu blog é um dos que escolhi.

Beijo

Ni*

Cleopatra disse...

O Eugénio...sempre presente
E doi tanto este poema...apesar de ainda se dizer "Meu amor", sabe-se que já partimos ou estamos de partida....Já gastámos as palavras meu amor...ou será que gastámos os sentimentos...

Aran disse...

Engraçado… e puseste “a tal” música…
Sabes… a propósito do poema… muito raramente uso a expressão “meu amor”, o que não signifique que não o sinta, mas não a uso levianamente e quando a pronuncio… é sentido… e nunca a uso numa despedida… Quanto aos “segredos” por descobrirem… eles existem e existiram sempre, desde que o tédio e o acomodação não se instale primeiro… e para isso não podemos “parar”… embora não seja fácil como tb é sempre uma luta injusta… acho que me entendes…
Bem e por aqui passei mais uma vez, e meu rasto deixei…
Um beijinho grande e inté…

Pescador disse...

;-)
apenas para sorrir...
para te sorrir
...
bjs doce Aran...
...
e votos de uma óptima semana para todos vós ;-)
Pescador

A. disse...

"Escuta, escuta: tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém - mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém? Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca, como a chuvinha que vem vindo devagar. São três, quatro palavras, pouco mais. Palavras que te quero confiar. Para que não se extinga o seu lume, o seu lume breve. Palavras que amei, que talvez ame ainda. Elas são a minha casa, o sal da tua língua."

Eugénio de Andrade







...e queria que estivesses bem, N.

um beijo.grande.





(as melhoras do Pai.:/)

Teresa disse...

Muito bonito :)

Aran disse...

Estou aqui quando precisares... espero que estejas bem e que tudo esteja bem!
Um beijinho grande... passei...