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domingo, outubro 04, 2009

Passei o Dia Ouvindo o que o Mar Dizia


" Eu hontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.
Chorámos, rimos, cantámos.
Fallou-me do seu destino,
Do seu fado...
Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Poz-se a cantar
Um canto molhádo e lindo.
O seu halito perfuma,
E o seu perfume faz mal!
Deserto de aguas sem fim.
Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...
Elle afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado...
Ao longe o Sol na agonia
De rôxo as aguas tingia.
«Voz do mar, mysteriosa;
Voz do amôr e da verdade!
- Ó voz moribunda e dôce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte...»
E os poetas a cantar
São echos da voz do mar!  "



António Botto

quinta-feira, setembro 17, 2009

As...




" As Palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras ? "


Eugénio de Andrade
Nestes ultimos dias tenho me sentido vazio de palavras...

sábado, setembro 05, 2009

por quem já não volta por quem eu perdi ...

Há uma voz de sempre

que chama por mim

para que eu lembre

que a noite tem fim



Ainda procuro

por quem não esqueci

em nome de um sonho

em nome de ti



Procuro à noite

Um sinal de ti

Eu espero à noite

por quem não esqueci

eu peço à noite

um sinal de ti

quem eu não esqueci



Por sinais perdidos

espero em vão

por tempos antigos

por uma canção



Ainda procuro

por quem não esqueci

por quem já não volta

por quem eu perdi


Procuro à noite

um sinal de ti

Eu espero à noite

por quem não esqueci

eu peço à noite

um sinal de ti

quem eu não esqueci



O teu silêncio

crava fundo no meu ser

mas ele diz tudo...

é mesmo adeus

não é...

terça-feira, agosto 18, 2009

Desejo































" Tenho fome de tua boca,

de tua voz,

teus cabelos

e pelas ruas vou sem me nutrir,

calado,

não me sustenta o pão,

a aurora me desconcerta,

procuro o líquido som de teus pés pelo dia.



Faminto estou de teu sorriso resvalado,

de tuas mãos cor de furioso celeiro,

tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,

quero comer tua pele como intacta amêndoa. "


Pablo Neruda

De Cien sonetos de amor


terça-feira, setembro 04, 2007

A Ilha do Arcanjo











"Onde o mar, com paredes de vidro, rodeia o centro inviolável: A Ilha"





















"Eu vos direi da ilha que na dornado








Arcanjo é eterna em chão escasso.








Fulva de gado ao dia. À noite, morna.








Embebida no verde. E o mar colaço.

















Ilhado alumbramento em templo torna








a unção de comtemplar. Um ténue traço








de garça entre água e céu. A paz encorna








em lagoa e lavoura o tempo e o espaço.










Tanto silêncio confiado à luz!








Trema um nenúfar se um trilo tremeluz.








Caiam o sol de azul os agapantos.























Na cevadeira a broa luminosa,








romeiros nos persignam com uma rosa.








Suas rezas joeiram pombos santos."



















Natália Correia

domingo, julho 01, 2007

Adeus










" Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,







e o que nos ficou não chega







para afastar o frio de quatro paredes.







Gastámos tudo menos o silêncio.







Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,







gastámos as mãos à força de as apertarmos,







gastámos o relógio e as pedras das esquina







sem esperas inúteis.






















Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.







Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;







era como se todas as coisas fossem minhas:







quanto mais te dava mais tinha para te dar.







Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.







E eu acreditava.







Acreditava,







porque ao teu lado







todas as coisas eram possíveis.























Mas isso era no tempo dos segredos,











era no tempo em que o teu corpo era um aquário,











era no tempo em que os meus olhos











eram realmente peixes verdes.











Hoje são apenas os meus olhos.











É pouco mas é verdade,











uns olhos como todos os outros.




























Já gastámos as palavras.











Quando agora digo: meu amor,











já não se passa absolutamente nada.











E no entanto, antes das palavras gastas,











tenho a certeza











de que todas as coisas estremeciam











só de murmurar o teu nome











no silêncio do meu coração.










Não temos já nada para dar.











Dentro de ti











não há nada que me peça água.











O passado é inútil como um trapo.











E já te disse: as palavras estão gastas.












Adeus."












Eugénio de Andrade