sábado, janeiro 23, 2010

As cartas que eu nunca te enviei - Vol.8

Querida Marta



Quando o Amor chegou e não me disse nada, interroguei-me de forma áspera, se não haveria alguém no céu a querer criar na terra um outro rei sem reino para além do outros, pois os espinhos em minha coroa assim o pareciam denunciar…
Sabes, atravessei minhentas paixões, com as mais estranhas cores e formas, senti raiva e cólera pelo amigo que me traiu assim como pela amiga que não me quis ouvir, contudo e agora, posso-te dizer de forma clara e profundamente sentida que este amor foi uma luz que atingiu a minha de alma com um tal explendor que não o consigo ainda verdadeiramente compreender e assim, talvez, mas só talvez, só o deva sentir.

Sabes, este amor que respiro mas que não compreendo, precipita-me para um abismo de dúvidas e medos, levando-me a questionar constantemente sobre se isto é, ou se apenas sonho.
Porquê sentir algo que nos queima como se o fogo alado que une dois amantes, não fosse mais de que uma fogueira banal e despida de chamas e calor.
Não seria tudo isto mais simples se tu amor fosses apenas e simplesmente algo que me recebesse e me levasse levitando para um paraiso eterno de sensações e sentires milenares !?!
Sabes, eu pergunto-me constantemente porque é que tu vieste para mim, que caminho percorreste e quem é que te indicou o local aonde eu estava.
Às vezes desejo que digas que foi o sol e a lua, o mar e a praia, mas quase sempre sinto uma aragem fria a tocar-me no pescoço e a dizer que foram as folhas frias e o Outono, o cacto e a pedra negra, as setas que te orientaram, as asas que te trouxeram.
O certo é que o dia não é eterno como seria de imaginar e a noite não é preenchida em todas elas com o brilho da lua cheia.
Se tudo estivesse certo neste amor eu não diria que algo está errado, porque tremo por não ter a certeza de que a chuva que cai é filha das ondas que nos banharam e não das lágrimas que pintam à noite a minha face.
Sabes, o princípio criou-me ilusões sobre o que se aproximava, como se aquelas noites passadas a dois, perto de um mundo tão só nosso, fossem na realidade transbordantes taças do mais doce e profundo néctar, do mais suave e prefeito vinho.
Fiquei tão tonto com o amor que me embriagava, que me consumia, a tal ponto e de tal forma que não consegui ver quem era ela aquela silhueta que enchia as taças. Que forma tinha, quem era, o que dizia, e aquilo que eu recusava ouvir.
Tudo deveria ser perfeito, tudo era perfeito, mesmo quando tu disseste que havia outra presença celeste a iluminar a tua existência, tudo continuava, de forma absurda, perfeito.
Será este o castigo por amar como nunca amei até hoje !?!
Será isto verdadeiramente amar alguém !?!
Talvez...., pois o amor é sempre cruel quando cerca a nossa alma com a mais profunda sensação de entrega e de despojo, e ao mesmo tempo, nos condena com a mais pesada das penas..., que alguém abra um caminho desejado em direcção ao nosso coração, mas que o faça com uma espada em brasa e um espinho sem rosas
E talvez o mais doloroso é saber que tudo isto se resume-se a uma evidência que tenho que aceitar.
Se te amo, e eu sei que te amo, talvez mais não me resta que a sujeição a um fogo que é asa de um silêncio brusco e frio, metade de tudo o que posso ter, evidência que só se poderá extinguir com a minha própria morte.
Eu sei que te amo e que nunca serei capaz de deixar de te amar, amo-te quando te digo que te amo e amo-te ainda mais quando te digo que não te amo.
Gostaria de por este fardo a um canto, recusar esta cruz, vender a alma ao diabo, fechar os olhos ao teu brilho, mas não o consigo.
Talvez tudo acabe um dia, talvez o tempo acabe por ser a amizade que nos leva o que nos atormenta, e apenas fiquem as recordações da frescura das tuas mãos e da suavidade de um corpo que mudou o meu corpo ... de uma alma que mudou o meu destino.

Desejo vivamente que eu seja sempre capaz de ouvir o vento a bater no pontão, cheirar o aroma do mar quando o sol se põe no horizonte, pisar a areia da praia criando caminhos e sonhos, e espero que tu lá estejas do outro lado do mundo se é esse local que desejas, a ouvir o mesmo vento, a sentir a mesma maresia, a criar os teus caminhos e os teus sonhos.
Talvez seja um castigo que tenha que cumprir, talvez não..., mas sinto-me condenado ou abençoado a dizer que espero que alcances tudo o que o teu amor te ordenar e que vivas intensamente cada minuto da tua existência, pois podes ter a certeza que a sonhar, eu vou estar a tua espera.

Pois eu sei que um dia eu te amei... e que esse dia será para sempre eterno !!

Com amor,

Pescador

Ultimos dias do século passado

2 comentários:

Iruvienne disse...

*sento-me ao teu lado num pontão qualquer em frente ao mar e pego na tua mão. ficamos em silêncio porque não há nada para dizer. mas fica com a certeza que do nada começarei a cantar "I just want to be ok, be ok, be ok
I just want to be ok today
I just want to feel today, feel today, feel today
I just want to feel something today
I just want to know today, know today, know today
Know that maybe I will be ok"

huuum com uma certa variaçao possivelmente ;) *


bjos doces

Brisa disse...

"Se te amo, e eu sei que te amo, talvez mais não me resta que a sujeição a um fogo que é asa de um silêncio brusco e frio"

Realço esta ideia, porque me surpreendeu pela eficácia de transmitir o que tantas vezes já senti. O amor é mas vezes cruel, como dizes, do que doce. Mas é mais "amor" sempre que é assim.
Pandora
Um beijo